A Criação de Adão, afresco de Michelangelo Buonarotti, pintado por volta de 1511, presente no teto da Capela Sistina, em Roma
Ao mesmo tempo em que se fala com
mais e mais frequência sobre a urgência de mudarmos nossa postura em relação a
determinados aspectos vitais para a nossa sobrevivência na Terra, cada vez mais
somos bombardeados com notícias que envolvem abusos e desmandos de nossos
semelhantes.
E olha que não estou me referindo apenas à
forma que tratamos o nosso já tão sofrido planeta.
Sem querer parecer ser antiquado,
a meu ver, a inversão de valores e a total falta de ética daqueles que deveriam
dar o exemplo são os principais responsáveis por tamanha distorção entre o que
nós, mais velhos, aprendemos como certo e errado.
É claro que por trás disso tudo
existe algo: o poder do capital. A busca pelo lucro desmedido cega, deturpa,
desvirtua, destrói.
Antes que eu me empolgue e me
estenda muito, lembrei de um texto muito interessante do Frei Betto, publicado
na página da Adital (Agência de Informação Frei Tito para a América
Latina). Apesar de ter sido escrito em 2005, a mensagem repleta de
verdades do frei dominicano e escritor nada perde em matéria de atualidade.
Frei Betto
- Você acredita que ainda há espaço para mim?
- Que pergunta, meu Deus! O
Senhor anda inseguro? Tem lido índices do mercado financeiro?
- É que as coisas na Terra mudam
numa velocidade que custo acompanhar. Outrora, eu era conhecido como o Criador.
Vocês agradeciam a mim o ciclo das estações, os frutos da terra, a chuva e os
ventos, as águas dos rios e os peixes do mar. Qual mesa farta, criei a natureza
para o bem de vocês.
- Sim, Senhor, sei que abusamos
da oferta. No início, extraíamos dela o necessário à sobrevivência. Para não
faltar, respeitávamos os seus ritmos. Depois, descobrimos como reproduzir a
natureza: inventamos a agricultura e a pecuária. E o que tinha valor de uso
passou a ter valor de troca. Nossa ambição de riqueza transformou a dádiva em
mercadoria.
- O que fazem com a inteligência
que lhes incuti? - retrucou Deus. - Que diabo de avanço científico é este que
deu origem à proliferação de armas nucleares, químicas e biológicas, capazes de
provocar destruição em massa? Não percebem que estão destruindo a biosfera?
- Perdão, Senhor. Andamos
enrascados num paradoxo: nosso crescimento econômico não beneficia os pobres e
ainda resulta em degradação ambiental.
- Outrora vocês estavam
submetidos à natureza - ponderou Deus. - Havia estreita ligação entre o ser
humano e o seu entorno natural. Era um caso de amor. Agora o processo se
inverteu: vocês adquiriram o poder de submeter a natureza.
- Não era o que o Senhor queria?
No sexto dia da Criação não recebemos a ordem de dominar os peixes do mar, as
aves do céu e os répteis que rastejam sobre a terra?
- Dominar é uma coisa; violar ou
estuprar é outra - reagiu Deus. - Vocês foram longe demais: envenenaram rios e
mares, poluíram a atmosfera e, agora, interferem nos processos químicos que
determinam o envelhecimento orgânico e manipulam tecnologicamente os processos
genéticos. Aonde pretendem chegar? Querem criar vida humana em laboratório e
alcançar a imortalidade?
- Somos movidos pelo lucro,
Senhor. Tudo que multiplica dinheiro constitui uma obsessão para nós.
- Vocês só sabem conjugar os
verbos somar e multiplicar? E subtrair e dividir? Como ficam os pobres? -
objetou Deus.
- Acabar com a fome dos pobres
não traz dividendos, mas clonar seres vivos é sinônimo de muita fortuna. Antes
a política comandava a economia. Agora a economia submete a política e
escanteia a ética.
- Não percebem que a economia
está pelo avesso? - exclamou Deus.
- Explica melhor, Senhor.
- Nunca se produziu tanto com tão
poucos produtores. A tecnologia de ponta substitui o trabalho vivo, condenando
milhões de famílias à informalidade no setor de serviços e outras tantas à
miséria. A violência globalizou-se. A dinâmica do capital acirra uma
competitividade exacerbada. Ilhas de riqueza e prosperidade estão cercadas de
fome e penúria por todos os lados. Vocês não se dão conta de que promovem o
dilúvio e, desta vez, sem uma arca que possa salvá-los?
- É verdade, Senhor, toda a nossa
vida social está contaminada pela mercantilização. Ao contrário dos antigos, já
não temos uma moral que sirva de raiz à nossa visão do mundo. Nem sei se temos
visão do mundo. O limite do nosso horizonte é a tela da TV. Hoje vivemos numa
sociedade pluralista, onde a religião também se transforma em artigo de
consumo, e a ética desmorona como base de um modo de pensar e agir comum a
todos. É cada um por si e Deus por ninguém.
- Apesar disso, continuo torcendo
por todos - suspirou Deus. - Sou Pai, mas não paternalista. Não haverei de
interferir de novo na história humana, como fiz ao enviar meu Filho. Dei-lhes
um mundo paradisíaco - um jardim. Vocês estragaram quase tudo, poluíram o lago,
cortaram as árvores, espantaram os pássaros, esmagaram a grama, secaram as
fontes. Agora, tratem de consertá-lo. Encontrar fundamentos ontológicos aos
princípios éticos e políticos capazes de pautar a vida social e pessoal. Não
faz sentido a coesão social derivar da coerção oficial promovida pelo Estado.
Criei-os livres, a ponto de poderem me rejeitar e se fechar aos meus dons. Se
não resgatarem a liberdade com as armas da justiça, a espiral da violência só
tenderá a crescer.
Retomei o início do diálogo:
- Por que pergunta se ainda há
espaço para a sua presença? Não vê que o mundo é cada vez mais religioso?
Proliferam igrejas, templos, cultos, seitas, movimentos esotéricos. O ateísmo
perde fiéis, a fé está mais viva do que nunca!
- Não é esse o espaço que busco -
retrucou Deus. - Também a religião se torna fonte de lucro e poder. Minha
pergunta é outra: há espaço para mim no coração humano? É a minha vontade que
as pessoas buscam? Ou são atraídas pela vaidade, pela ambição, pelo egoísmo?
Quem é capaz de me reconhecer na face de quem tem fome, está excluído e oprimido?
- Vou ser sincero, Senhor. Nesse
sentido, não há muito espaço. Nossos corações desaprendem a orar, a ter
compaixão, a promover o gesto solidário. Temo que, após ter rompido a comunhão
com a natureza, estejamos agora esgarçando a família humana. E, de quebra,
nossa sintonia com o Senhor.
- Sim, vocês me louvam com os
lábios, mas não com o coração. Prestam-me cultos, mas não libertam o oprimido.
Amam mais a posse que o dom.
Fiquei preocupado:
- O Senhor vai nos deixar à
deriva? Vai cancelar a sua obra, zerar a Criação?
- De modo algum. Por mais
estúpidos que vocês sejam, não deixo de amá-los. Nem pretendo abandoná-los.
Vocês haverão de aprender com os próprios erros. Espero apenas que não
demasiadamente tarde.
Antes que ele se fosse, indaguei:
- Senhor, caso queira
encontrá-lo, aonde devo buscá-lo?
- Não precisa ir longe - disse ele com uma ponta de ironia. Basta um
mergulho em seu mundo interior. Estou no lado avesso de seu coração. Mas
prefiro que também me encontre na face dos que sofrem.
http://www.adital.com.br/site/noticia2.asp?lang=PT&cod=18002

















