terça-feira, 20 de março de 2012

Frei Betto - Conversando com Deus

A Criação de Adão, afresco de Michelangelo Buonarotti, pintado por volta de 1511, presente no teto da Capela Sistina, em Roma

Ao mesmo tempo em que se fala com mais e mais frequência sobre a urgência de mudarmos nossa postura em relação a determinados aspectos vitais para a nossa sobrevivência na Terra, cada vez mais somos bombardeados com notícias que envolvem abusos e desmandos de nossos semelhantes.

E olha que não estou me referindo apenas à forma que tratamos o nosso já tão sofrido planeta. 

Sem querer parecer ser antiquado, a meu ver, a inversão de valores e a total falta de ética daqueles que deveriam dar o exemplo são os principais responsáveis por tamanha distorção entre o que nós, mais velhos, aprendemos como certo e errado.

É claro que por trás disso tudo existe algo: o poder do capital. A busca pelo lucro desmedido cega, deturpa, desvirtua, destrói.

Antes que eu me empolgue e me estenda muito, lembrei de um texto muito interessante do Frei Betto, publicado na página da Adital (Agência de Informação Frei Tito para a América Latina). Apesar de ter sido escrito em 2005, a mensagem repleta de verdades do frei dominicano e escritor nada perde em matéria de atualidade.

Frei Betto

- Você acredita que ainda há espaço para mim?

- Que pergunta, meu Deus! O Senhor anda inseguro? Tem lido índices do mercado financeiro?

- É que as coisas na Terra mudam numa velocidade que custo acompanhar. Outrora, eu era conhecido como o Criador. Vocês agradeciam a mim o ciclo das estações, os frutos da terra, a chuva e os ventos, as águas dos rios e os peixes do mar. Qual mesa farta, criei a natureza para o bem de vocês.

- Sim, Senhor, sei que abusamos da oferta. No início, extraíamos dela o necessário à sobrevivência. Para não faltar, respeitávamos os seus ritmos. Depois, descobrimos como reproduzir a natureza: inventamos a agricultura e a pecuária. E o que tinha valor de uso passou a ter valor de troca. Nossa ambição de riqueza transformou a dádiva em mercadoria.

- O que fazem com a inteligência que lhes incuti? - retrucou Deus. - Que diabo de avanço científico é este que deu origem à proliferação de armas nucleares, químicas e biológicas, capazes de provocar destruição em massa? Não percebem que estão destruindo a biosfera?

- Perdão, Senhor. Andamos enrascados num paradoxo: nosso crescimento econômico não beneficia os pobres e ainda resulta em degradação ambiental.

- Outrora vocês estavam submetidos à natureza - ponderou Deus. - Havia estreita ligação entre o ser humano e o seu entorno natural. Era um caso de amor. Agora o processo se inverteu: vocês adquiriram o poder de submeter a natureza.

- Não era o que o Senhor queria? No sexto dia da Criação não recebemos a ordem de dominar os peixes do mar, as aves do céu e os répteis que rastejam sobre a terra?

- Dominar é uma coisa; violar ou estuprar é outra - reagiu Deus. - Vocês foram longe demais: envenenaram rios e mares, poluíram a atmosfera e, agora, interferem nos processos químicos que determinam o envelhecimento orgânico e manipulam tecnologicamente os processos genéticos. Aonde pretendem chegar? Querem criar vida humana em laboratório e alcançar a imortalidade?

- Somos movidos pelo lucro, Senhor. Tudo que multiplica dinheiro constitui uma obsessão para nós.

- Vocês só sabem conjugar os verbos somar e multiplicar? E subtrair e dividir? Como ficam os pobres? - objetou Deus.

- Acabar com a fome dos pobres não traz dividendos, mas clonar seres vivos é sinônimo de muita fortuna. Antes a política comandava a economia. Agora a economia submete a política e escanteia a ética.

- Não percebem que a economia está pelo avesso? - exclamou Deus.

- Explica melhor, Senhor.

- Nunca se produziu tanto com tão poucos produtores. A tecnologia de ponta substitui o trabalho vivo, condenando milhões de famílias à informalidade no setor de serviços e outras tantas à miséria. A violência globalizou-se. A dinâmica do capital acirra uma competitividade exacerbada. Ilhas de riqueza e prosperidade estão cercadas de fome e penúria por todos os lados. Vocês não se dão conta de que promovem o dilúvio e, desta vez, sem uma arca que possa salvá-los?

- É verdade, Senhor, toda a nossa vida social está contaminada pela mercantilização. Ao contrário dos antigos, já não temos uma moral que sirva de raiz à nossa visão do mundo. Nem sei se temos visão do mundo. O limite do nosso horizonte é a tela da TV. Hoje vivemos numa sociedade pluralista, onde a religião também se transforma em artigo de consumo, e a ética desmorona como base de um modo de pensar e agir comum a todos. É cada um por si e Deus por ninguém.

- Apesar disso, continuo torcendo por todos - suspirou Deus. - Sou Pai, mas não paternalista. Não haverei de interferir de novo na história humana, como fiz ao enviar meu Filho. Dei-lhes um mundo paradisíaco - um jardim. Vocês estragaram quase tudo, poluíram o lago, cortaram as árvores, espantaram os pássaros, esmagaram a grama, secaram as fontes. Agora, tratem de consertá-lo. Encontrar fundamentos ontológicos aos princípios éticos e políticos capazes de pautar a vida social e pessoal. Não faz sentido a coesão social derivar da coerção oficial promovida pelo Estado. Criei-os livres, a ponto de poderem me rejeitar e se fechar aos meus dons. Se não resgatarem a liberdade com as armas da justiça, a espiral da violência só tenderá a crescer.

Retomei o início do diálogo:

- Por que pergunta se ainda há espaço para a sua presença? Não vê que o mundo é cada vez mais religioso? Proliferam igrejas, templos, cultos, seitas, movimentos esotéricos. O ateísmo perde fiéis, a fé está mais viva do que nunca!

- Não é esse o espaço que busco - retrucou Deus. - Também a religião se torna fonte de lucro e poder. Minha pergunta é outra: há espaço para mim no coração humano? É a minha vontade que as pessoas buscam? Ou são atraídas pela vaidade, pela ambição, pelo egoísmo? Quem é capaz de me reconhecer na face de quem tem fome, está excluído e oprimido?

- Vou ser sincero, Senhor. Nesse sentido, não há muito espaço. Nossos corações desaprendem a orar, a ter compaixão, a promover o gesto solidário. Temo que, após ter rompido a comunhão com a natureza, estejamos agora esgarçando a família humana. E, de quebra, nossa sintonia com o Senhor.

- Sim, vocês me louvam com os lábios, mas não com o coração. Prestam-me cultos, mas não libertam o oprimido. Amam mais a posse que o dom.

Fiquei preocupado:

- O Senhor vai nos deixar à deriva? Vai cancelar a sua obra, zerar a Criação?

- De modo algum. Por mais estúpidos que vocês sejam, não deixo de amá-los. Nem pretendo abandoná-los. Vocês haverão de aprender com os próprios erros. Espero apenas que não demasiadamente tarde.

Antes que ele se fosse, indaguei:

- Senhor, caso queira encontrá-lo, aonde devo buscá-lo?

- Não precisa ir longe - disse ele com uma ponta de ironia. Basta um mergulho em seu mundo interior. Estou no lado avesso de seu coração. Mas prefiro que também me encontre na face dos que sofrem.

http://www.adital.com.br/site/noticia2.asp?lang=PT&cod=18002

segunda-feira, 19 de março de 2012

Terra roxa

Foto: estamosnosolo.blogspot.com.br

Você sabia que o tipo de solo originário da decomposição de rochas basálticas, denominado de terra roxa, tão característico do norte paranaense, na verdade possui um tom avermelhado?

Essa designação deriva da forma que os imigrantes italianos chamavam o solo extremamente fértil encontrado nas lavouras de café onde haviam se estabelecido: terra rossa.

E como rosso, em italiano, significa vermelho, pela sonoridade, nós, brasileiros - quem sabe se por influência da empolgação por um futuro promissor tão sonhado por esses colonos -, aportuguesamos o termo para o nosso idioma, adotado definitivamente para identificar, de um jeito bem peculiar, a terra rubra como sangue em que se plantando tudo dá.

domingo, 18 de março de 2012

João Bosco - O Ronco da Cuíca

Aldir Blanc e João Bosco

Fruto de uma das mais brilhantes e criativas parcerias da Música Popular Brasileira, O Ronco da Cuíca, de João Bosco e Aldir Blanc, é uma composição de forte conotação social, em que a combinação entre letra e música ocorre na mais perfeita harmonia.

Galos de Briga, de 1976

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Introdução com a letra de Gênesis (Parto) e música de Escadas da Penha.

Roncou, roncou
Roncou de raiva a cuíca
Roncou de fome
Alguém mandou
Mandou parar a cuíca
É coisa dos “home”

A raiva dá pra parar
Pra interromper
A fome não dá
Pra interromper
A raiva e a fome
É coisa dos “home”

A fome tem que ter raiva
Pra interromper
A raiva é a fome
De interromper
A fome e a raiva
É coisa dos “home”

É coisa dos “home”
É coisa dos “home”
A raiva e a fome
A raiva e a fome
Mexendo a cuíca
Vai tem que roncar

sábado, 17 de março de 2012

Questão de Honra (A Few Good Men): "You Can't Handle the Truth!"


"Você não suportaria a verdade!"

A frase pronunciada por Jack Nicholson em Questão de Honra (A Few Good Men), de 1992, é simplesmente uma das melhores falas que o cinema já registrou.


Para atiçar a sua curiosidade, não quero falar sobre a história em si, mas vou logo adiantando que, apesar de o personagem de Tom Cruise também ter feito bonito na antológica cena da Corte Marcial, é justamente nessa hora que o Coronel Nathan R. Jessep, interpretado magistralmente por Nicholson, entra em ação e mostra que é ele quem manda no filme.

Originário da peça homônima, roteirizada e adaptada para as telas por Aaron Sorkin, a impecável direção de Rob Reiner é uma mostra de sua perfeita sintonia com um elenco pra lá de afinado. Mais do que coadjuvantes, nomes como Demi Moore, Kevin Bacon, Kiefer Sutherland, Kevin Pollack acrescentam um brilho todo especial à trama.

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quinta-feira, 15 de março de 2012

Significado do termo consumo


Excelente texto extraído do livro didático do 9º ano Observatório da Geografia - Territórios da globalização, de Angela Corrêa da Silva, Raul Borges Guimarães e Regina Araújo (Editora Moderna), que sintetiza de forma clara e precisa a verdadeira essência do consumismo desenfreado que atinge um número cada vez maior de pessoas e tão bem caracteriza os dias atuais.

“O termo consumo tem raízes tanto inglesas quanto francesas. Em sua forma original, consumir significa destruir, saquear, subjugar, exaurir. É uma palavra impregnada de violência e até o presente século tinha apenas conotações negativas. Até a década de 1920, a palavra ainda era usada para referir-se à mais fatal das doenças da época – a tuberculose. Hoje, o americano médio consome duas vezes mais do que consumia ao final da II Guerra Mundial. A metamorfose do consumo, de vício à virtude, é um dos fenômenos mais importantes e, no entanto, o menos analisado do século XX.”

RIFKIN, Jeremy. O fim dos empregos. São Paulo: Makron Books, 1996, p. 19.

terça-feira, 13 de março de 2012

Unidade Paraná Seguro (UPS)


Para quem não sabe, o Paraná implantou um programa de segurança pública nos moldes das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPP’s) do Rio de Janeiro.

Além de reduzir os indicadores de criminalidade em terras paranaenses, a chamada Unidade Paraná Seguro (UPS) também tem por objetivo promover a integração social como forma de minimizar a escalada da violência em nosso estado.

Depois da recente ação efetivada no bairro Uberaba, em Curitiba, através da Operação Paraná Segurança Total, a próxima cidade a ser contemplada deve ser Londrina, terceira maior cidade da Região Sul, que está na rota do tráfico de drogas e de veículos roubados.

 A configuração das fronteiras paranaenses está diretamente ligada os à intensificação das atividades criminosas no estado

Ao contrário do caso do Rio de Janeiro, a insegurança no Paraná não se restringe apenas a um só lugar. Ainda que a região metropolitana de Curitiba mereça uma atenção especial, outras cidades em pleno processo de crescimento, como Cascavel, Maringá e Foz do Iguaçu, aparecem com frequência cada vez maior nos noticiários policiais.


segunda-feira, 12 de março de 2012

Mitos Sobre a Fundação dos Estados Unidos


Se existe uma nação que tem a sua história envolta em mitos fantásticos e personagens extraordinários, este país só pode ser um: os Estados Unidos.

O livro “Mitos Sobre a Fundação dos Estados Unidos - A Verdadeira História da Independência Norte-Americana”, de Ray Raphael (Editora Civilização Brasileira, 2004) revela que o fato de possuir uma história simples, direta e objetiva contribuiu para forjar uma imagem em que a construção de herois representados por determinados indivíduos, minimiza a importância da participação popular e se distancia dos princípios fundamentais que conduziram à Revolução Americana.

 O quadro A declaração de independência, 4 de julho de 1776, pintado por John Trumbull em 1818, contradiz o fato de não ter havido nenhuma cerimônia de Declaração no dia retratado

Para reforçar tal pensamento, a associação entre símbolos nacionais, fábulas glamourosas e grandes feitos comprova que a eficiência da invenção do passado deixou suas marcas na identidade e no imaginário do povo estadunidense, expressas pelo forte senso de patriotismo e pela crença de serem eles os escolhidos por Deus para que o mundo siga os seus passos no único caminho que conduz à verdade suprema e irrefutável.

Ao final do livro, uma nota aos professores interessados em recontar a história que não consta no material adotado pelas escolas estadunidenses. Um dos programas Teaching American History, que contou com a participação voluntária de professores regentes na elaboração de planos de aulas sobre os capítulos de Mitos Sobre a Fundação dos Estados Unidos, está disponível na página Northern Humboldt Union High School District ou no próprio site do autor.


domingo, 11 de março de 2012

Rio Tinto - Espanha


Seria esta uma paisagem de Marte, comprovando a existência de água no planeta vermelho? Quem sabe, então, se a imagem acima retrata um crime ambiental de largas proporções?

Não, meus caros, não estamos em terras marcianas, nem falando do efeito do despejo indiscriminado de dejetos nas águas de algum rio.



Apesar da semelhança, a foto mencionada mostra mais uma maravilha da natureza, o Rio Tinto, situado na província espanhola de Huelva, na região de Andaluzia, pertinho de Portugal.

 Eurobot Ground Prototype

Ainda que essa proximidade tenha levado o Rio Tinto a ser escolhido como uma área de simulações de pesquisas aeroespaciais, essa característica tão peculiar se deve à grande concentração de ferro e à elevada acidez de suas águas, conferindo-lhe uma coloração avermelhada, que, combinados com a intensa atividade mineradora e o fato de ali existir muito pouco oxigênio, contribuíram para a difusão da crença de que este seria um rio morto, que não possibilitasse a ocorrência de qualquer tipo de vida. Não faz muito tempo que tal pensamento se comprovou equivocado, pois ali vivem microrganismos chamados quimiolitotrofos, que não necessitam de matéria orgânica e se alimentam de minerais.