domingo, 17 de julho de 2016

A Segunda Guerra Fria: Geopolítica e dimensão estratégica dos Estados Unidos


Costumo dizer que nem sempre é fácil dimensionar o significado e o peso histórico de certos fatos no desenrolar dos próprios acontecimentos. No campo da geopolítica, então, é preciso muito mais do que um olhar crítico e aguçado para perceber com clareza todas as nuances que envolvem as motivações e os desdobramentos da influência ou até mesmo da intervenção que um determinado país pode exercer sobre outro.

Ainda que na maioria das vezes essas ações não se traduzam necessariamente em ocupação e ocorram de maneira sutil e quase imperceptível, devemos ter o máximo de cuidado para não nos prendermos àquilo que diz a grande mídia, principalmente quando sabemos que a maior parte desses veículos de comunicação atende aos interesses de um determinado grupo ou governo, seja para controlar e explorar seus recursos naturais, para expandir negócios e até mesmo intervir, impor diretrizes e praticar algum tipo de domínio sobre essas áreas que consideram de importância estratégica.

Além disso, analisar a situação de um país que atravessa momentos de turbulência política de forma isolada, e não dentro de um contexto maior e mais abrangente, é um equívoco capaz de provocar um grave erro de interpretação ou uma visão altamente distorcida dos fatos.

O livro A Segunda Guerra Fria, de autoria do cientista político e escritor Luiz Alberto Moniz Bandeira, lançado em 2013 pela Editora Civilização Brasileira, é uma dessas obras de quem fala com conhecimento de causa. A análise precisa e contundente que o autor faz sobre como os Estados Unidos continuam a agir para consolidar sua posição de liderança mundial nos faz pensar que nada do que acontece no mundo é fruto do acaso.

Leia abaixo a sinopse do livro extraída da página da própria editora.

Com base nas mais diversas fontes de informação, o renomado cientista político Moniz Bandeira analisa os acontecimentos que desde a dissolução do bloco socialista e a desintegração da União Soviética abalaram os países da Eurásia e ainda convulsionam o Oriente Médio e a África do Norte. Em A Segunda Guerra Fria, o autor defende a tese de que os Estados Unidos continuam a implementar a estratégia da full spectrum dominance (dominação de espectro total) contra a presença da Rússia e da China naquelas regiões.

“Importante contribuição da obra de Moniz Bandeira é a revelação documentada de que as revoltas da Primavera Árabe não foram nem espontâneas e ainda muito menos democráticas, mas que nelas tiveram papel fundamental os Estados Unidos, na promoção da agitação e da subversão, por meio do envio de armas e de pessoal, direta ou indiretamente, através do Qatar e da Arábia Saudita”, afirma o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, que assina o prefácio do livro. Moniz Bandeira aprofunda, desdobra e atualiza as questões apresentadas em outro livro de sua autoria – Formação do Império Americano (Da guerra contra à Espanha à guerra no Iraque), lançado em 2005. “Em face das revoltas ocorridas na África do Norte e no Oriente Médio a partir de 2010, julguei necessário expandir e atualizar o estudo. Tratei de fazê-lo, entre e março e novembro de 2012, em cima dos acontecimentos, i.e., ainda quando a história fluía, sempre se renovando, passando, como as águas de um rio”, afirma o autor. Considerado o mais importante especialista brasileiro em relações internacionais, Moniz Bandeira faz uma análise da situação do Brasil na conjuntura internacional. Ele fala sobre o surgimento de possíveis obstáculos para a formação de um bloco sul-americano e faz alertas, como a necessidade de deter a evasão de divisas promovida pelos capitais especulativos e a necessidade de o país ter competência militar para se defender e dissuadir.

Assista a seguir ao vídeo com o depoimento de Moniz Bandeira concedido ao canal Equipe GGN Notícias, do jornalista Luis Nassif.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Ironweed, de Hector Babenco


Todo mundo está cansado de saber que os estadunidenses não são muito chegados a reconhecer, falar ou mostrar suas mazelas, ainda mais se tratando de cinema.

É claro que existem exceções, e uma delas é o filme Ironweed, de 1987, um drama dirigido pelo argentino naturalizado brasileiro, Hector Babenco.

O filme é uma adaptação do romance homônimo, de William Kennedy, ganhador do prêmio Pulitzer, que também escreveu o roteiro.


A história gira em torno dos personagens Francis Phelan e Helen Archer, interpretados, de forma que dispensa maiores comentários, respectivamente, por dois monstros sagrados do cinema, Jack Nicholson e Meryl Streep, sem esquecer de Tom Waits, que enriquece o filme de um modo bem peculiar.


Mostrando um país que ainda vive sob os efeitos dos piores anos da Grande Depressão (o filme se passa em 1938), cada um dos protagonistas convive com seus próprios fantasmas e faltas de perspectivas. Enquanto Francis Phelan vive atormentado e não suporta a culpa de ter deixado cair no chão o seu filho menor, um bebê, vinte e dois anos antes, sua companheira, Helen, não se desvencilha de um passado em que era uma cantora e pianista de sucesso.


O resto, só conferindo.

terça-feira, 21 de junho de 2016

As controversas bases estadunidenses na Argentina


Um assunto que curiosamente tem sido muito pouco debatido pela grande mídia brasileira diz respeito ao acordo que prevê a instalação de duas bases militares estadunidenses na Argentina, uma em Ushuaia, na Terra do Fogo, extremo sul do continente americano, e outra na Tríplice Fronteira entre Argentina, Brasil e Paraguai.

Um pouquinho de geopolítica não faz mal a ninguém, a não ser que você não queira mesmo perceber que os diferentes interesses que fazem o mundo girar vão muito além de seu pequeno umbigo.

Ainda que o Brasil possua suas peculiaridades, analisar a situação de nosso país de uma forma totalmente isolada representa um erro grotesco de avaliação. Em outras palavras, não podemos deixar de considerar as diferentes instâncias da crise nacional sem que analisemos os pormenores que envolvem o atual contexto da economia global. Ou ainda, não devemos sequer desprezar que acontecimentos como o ressurgimento dos movimentos de direita estão diretamente relacionados a essa tendência em que o conservadorismo se revela e se expande em âmbito internacional.

Se você desconfiava da liderança de nossa política externa em relação aos países sul-americanos, certamente não percebeu que as estratégias adotadas desde o governo Lula representavam não só o fortalecimento de laços culturais ou o estabelecimento de programas de cooperação mútua com nações amigas, mas também uma forma de consolidação da presença brasileira como potência regional. Mas se você também acreditava que essa aproximação pudesse representar algum tipo de ameaça de implantação de um regime bolivariano (ou qualquer outra baboseira do gênero), tenho certeza que sequer notou que, ao mesmo tempo em que estranhamente os Estados Unidos se calavam diante da crise política brasileira, a recente visita do presidente estadunidense à Argentina de Macri servia para delinear um acordo para a instalação das duas bases militares no país vizinho.

Ao contrário do que tenho visto nas escassas matérias que abordam este assunto, entendo que o estabelecimento do aparato de guerra dos Estados Unidos numa área de importância estratégica para o Brasil representa muito mais do que a possibilidade de perdermos uma posição de liderança ou de nos enfraquecermos como potência regional, algo que não faz tantos anos assim era alvo de disputa e desavenças com nuestros hermanos.

Diante da importância da situação, se depois disso tudo você continua a não dimensionar que essa nítida demonstração da força e onipresença ianque nesta porção do continente americano evidencia uma situação de risco à soberania nacional, lembre-se que a ousadia de rompimento dos grilhões de todo um passado de submissão, adulação e dependência levado a cabo com alguns posicionamentos brasileiros adotados no decorrer dos últimos anos - como a rejeição à criação da ALCA ou a adesão ao grupo dos BRICS como uma outra alternativa de desenvolvimento - são motivos mais do que suficientes para desagradar e contrariar os interesses estadunidenses na América Latina.

Depois disso tudo, se ainda assim você acha que tudo isso é exagero de minha parte, não se esqueça que a postura do atual ministro das Relações Exteriores tem nos dado provas contundente de que esse governo de mentirinha instaurado no Brasil obedece a mesma cartilha muito bem aprendida pelo presidente argentino, que, por sinal, vem fazendo o jogo duplo para que as circunstâncias lhes favoreçam.

Créditos da imagem: Politico Magazine

Leia a seguir um artigo publicado na página Sputnik Brasil em 25 de maio último que levanta algumas questões de extrema relevância sobre o tema.

Macri abre Argentina para duas bases estratégicas dos EUA: Cone Sul em perigo?

A visita do presidente Barack Obama a Buenos Aires selou um acordo com o chefe de Estado argentino Mauricio Macri para a instalação de duas bases dos EUA no país: uma em Ushuaia, na Terra do Fogo, e outra na Tríplice Fronteira entre Argentina, Brasil e Paraguai. Estaria o Cone Sul ameaçado militarmente em sua soberania econômica e política?

Segundo José Carlos de Assis, economista, doutor em Engenharia de Produção pela Coppe-UFRJ e professor de Economia Internacional da UEPB, a resposta é sim. Em texto publicado na terça-feira (24), enquanto Obama decolava de Buenos Aires sob uma enxurrada de protestos contra sua presença no país, Assis ressalta que “a base em Ushuaia é uma projeção próxima e direta sobre a Antártica, a maior reserva gelada de água doce do mundo, além de conter importantes minerais estratégicos”.

“A base na Tríplice Fronteira é uma projeção sobre o aquífero Guarani, a terceira maior reserva de água doce do mundo. Obviamente, os interesses ‘científicos’ dos EUA em instalar essas bases se efetiva na realidade no campo geopolítico. Eles correram para fazer o acordo com Macri tão logo tomou posse porque, assim como no caso brasileiro, não querem correr risco de recuo”, continua o professor.

A referência aos interesses “científicos” diz respeito ao argumento apresentado pelos governos Macri e Obama para justificar as bases dos EUA em pontos de interesse estratégico vital para as nações do Cone Sul.

“É espantoso que justamente um governo argentino tome essa iniciativa em favor da ingerência norte-americana no Cone Sul quando foram os EUA, na única guerra em que a Argentina se envolveu do século XX para cá, a Guerra das Malvinas, que colocaram toda a sua infraestrutura de informação a favor do inimigo que saiu vitoriosos, a Inglaterra. Talvez Macri, por ser relativamente jovem, tenha se esquecido disso. Duvido, porém, que o subconsciente coletivo do povo argentino também tenha se esquecido”, prossegue Assis, atribuindo ao atual governo argentino uma “combinação de ideologia subserviente com ilusão de ganhos econômicos”.

Na semana passada, uma matéria do diário argentino Integración Nacional já ventilava a mesma opinião, expressa em palavras de Elsa Bruzzone, especialista em geopolítica, estratégia e defesa nacional e integrante do Centro de Militantes para a Democracia Argentina (CEMIDA).

“Os EUA utilizam diversos pretextos, entre eles o de ‘ajuda humanitária’ e ‘apoio diante de catástrofes naturais’, para instalar bases militares disfarçadas de bases científicas. Estas bases encobertas eles sempre as instalam em zonas onde há recursos naturais altamente estratégicos: água, terra fértil para produção de alimentos, minerais, petróleo, biodiversidade”, afirmou a analista argentina, em entrevista ao jornal.

Segundo Bruzzone, os EUA querem “fechar o cerco sobre todos os recursos naturais" da América.

“As bases militares, cobertas e encobertas, que instalaram na América Central e no Caribe, somadas às que possuem na Colômbia, no Peru, no Chile e no Paraguai, junto com a base militar da OTAN nas Malvinas mais o destacamento britânico nas Ilhas Georgias fecham o cerco sobre todos nossos recursos naturais e reafirmam sua presença na Antártida”, acresentou.

Por último, a especialista assinalou ainda que a Antártida, além de ser a maior reserva de água doce congelada no mundo, contém “as maiores reservas de petróleo da região” e “minerais altamente estratégicos que são indispensáveis para a indústria militar e a aeroespacial”.

Neste contexto, cabe lembrar que o Brasil, que compartilha mais de 1.200 km de fronteira com a Argentina, possui dois aquíferos subterrâneos de enorme importância: o Guarani e o Alter do Chão. Este último, aliás, é considerado o maior depósito de água potável do mundo, com 86 mil km³ de água doce.

domingo, 29 de maio de 2016

29 de maio - Dia do Geógrafo


Como costumo dizer, nem tudo é Geografia, mas, definitivamente, a Geografia está em tudo.

Parabéns a todos os geógrafos e amigos da Geografia pelo nosso dia!

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Gênesis - Sebastião Salgado


Depois de tanto tempo afastado, a escolha de Gênesis, do mais do que renomado fotógrafo Sebastião Salgado, para pelo menos tentar retomar as atividades do blog tem um quê de simbolismo. Além de ser fã confesso desse ilustre brasileiro, a ideia de criação contida no título do livro traduz com bastante precisão a minha intenção de transmitir uma mensagem de renovação ou até mesmo de resistência diante de tempos tão conturbados.


Quanto à obra em si, o livro, lançado em 2013, é um projeto tão belo quanto ambicioso, que, claramente inspirado na Bíblia, reúne imagens que apresentam variadas paisagens dos mais diversos pontos da Terra, com seus respectivos agrupamentos humanos que vivem como em períodos ancestrais.


Em outras palavras, mais geográfico, impossível.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O mapa da corrupção mundial em 2015


Depois de postar por dois anos consecutivos os dados contidos no relatório sobre o panorama da corrupção nos mais diversos países do mundo denominado Corruption Perceptions Index (CPI)resultante de um minucioso levantamento elaborado pela organização não-governamental Transparency International, com sede na Alemanha, agora chegou a vez de mostrar os resultados referentes ao ano de 2015.

Para melhor compreender as informações fornecidas pela Transparência Internacional ‒ em especial, o caso do Brasil ‒, leia a seguir a matéria escrita por Mariana Sanches, publicada em O Globo.


O Brasil perdeu sete posições no ranking de corrupção medido pela organização Transparência Internacional e divulgado nesta terça-feira, na Alemanha. Em 2015, o país ficou em 76º em uma lista de 168 posições. Obteve nota 38, em uma escala de 0 a 100 sobre a corrupção percebida no sistema público, em que a nota máxima significa país livre de corrupção. Em 2014, o Brasil figurava na 69ª colocação com 43 pontos.

‒ Apenas o pequeno país africano Lesoto teve um desempenho tão ruim quanto o do Brasil. No caso brasileiro, não ficamos surpresos. Desde o escândalo do mensalão, a questão da corrupção entrou na agenda pública do país. Houve protestos sobre desvios em obras da Copa e agora o rumoroso caso da Petrobras. O que preocupa é que no Brasil não se trata de um político fazendo algo sujo individualmente, a corrupção é crime organizado ‒ afirma Alejandro Salas, diretor regional de Américas da Transparência.

O relatório credita às descobertas da Operação Lava-Jato o aprofundamento da crise econômica brasileira. De acordo com a organização, o país “foi atingido pelo escândalo da Petrobras, no qual políticos são acusados de receber propina em troca de contratos públicos. A economia foi triturada e dezenas de milhares de brasileiros já perderam seu emprego. Esses trabalhadores desempregados não são os responsáveis pelas decisões corruptas, mas são aqueles obrigados a viver com suas consequências”. Na América Latina, o Brasil não é exceção à tendência recente apontada pela Transparência de grandes escândalos de corrupção que fustigam políticos e provocam revolta popular.

Em meio à percepção negativa da opinião pública nacional e internacional quanto à corrupção no Brasil, os analistas da Transparência Internacional ressaltam pontos positivos no momento vivido pelo país. Salas salienta que pessoas até então consideradas “intocáveis” por seu poder político ou econômico estão sob investigação e mesmo presas.

‒ As instituições como a Polícia Federal, o Ministério Público e a Justiça estão funcionando. Não acredito que os malfeitos tenham aumentado no Brasil nos últimos 20 anos. A diferença é que agora ficamos sabendo do que aconteceu e a população já não mostra mais tolerância a esse tipo de desvio ‒  afirma Salas.

Apenas investigação e revolta, no entanto, não bastam para solucionar definitivamente o problema da corrupção.

‒ Em 2015, nada mudou na agenda política porque o Congresso é um circo de políticos brigando por interesses pessoais e bloqueando a aprovação das necessárias reformas institucionais. Algo tem que mudar ‒ diz Salas.

Fonte: O Globo – 27/01/2016

Veja os resultados de 2013 e 2014 clicando nos links abaixo: