terça-feira, 26 de março de 2013

O que dizem os livros escolares de judeus e palestinos?


Muito já se disse que a História é contada de acordo com os interesses de cada um, da mesma forma que é mais do que sabido que a confecção de mapas pode refletir o ponto de vista de quem os elaborou.

Agora que os Estados Unidos adotam uma postura de que a criação do Estado da Palestina é vital para o estabelecimento da paz na turbulenta região do Oriente Médio, ainda que de modo parcial e com outros propósitos embutidos em seu discurso de contemporização, a divulgação dos resultados de um estudo em que o conteúdo de diversos livros adotados em escolas israelenses e palestinas, se não chega a surpreender, comprova que as ideias contidas no material didático utilizado podem muito bem ser manipuladas para reforçar um sentimento de intolerância entre povos cuja convivência não tem nada de amistosa.

O artigo que reproduzo a seguir, de autoria de Daniela Kresch, foi veiculado na página de O Globo, no último dia 23. É interessante observar que, entre outros fatores, Israel reclama incisivamente da forma que são descritos, ao mesmo tempo que não assumem o tratamento altamente preconceituoso destinado aos palestinos.



Estudo mostra que escolas palestinas e israelenses distorcem História e Geografia da região

Eventos históricos são apresentados de forma seletiva nos livros escolares dos dois lados com o objetivo de reforçar a narrativa nacional de cada comunidade

TEL AVIV e RAMALLAH - Na semana passada, em sua primeira visita como presidente a Israel e aos territórios palestinos, Barack Obama instou os jovens a pressionarem seus governantes a buscarem a paz no Oriente Médio. Um estudo recente patrocinado pelo governo americano, porém, mostra que, a depender do que esses mesmos jovens aprendem na escola, a tolerância e a aceitação mútua necessárias para a obtenção de um acordo serão difíceis de conseguir.

Em três anos de trabalho, pesquisadores israelenses, palestinos e americanos avaliaram o conteúdo de 168 livros de escolas de Israel e dos territórios palestinos e concluíram que, apesar de tendenciosos, a grande maioria não incita à violência ou demoniza o outro lado. Mas o que parecia ser uma boa notícia se tornou polêmica. Enquanto os palestinos - acusados por Israel de pregar a luta armada nas escolas - festejaram os resultados, os israelenses rejeitaram o estudo, alegando que os pesquisadores ignoraram conteúdos preconceituosos e violentos.

O estudo “Vítimas de suas próprias narrativas? Retrato do outro em livros escolares israelenses e palestinos” foi encomendado em 2009 pelo Conselho de Instituições Religiosas da Terra Santa, uma ONG que reúne clérigos judeus, muçulmanos e cristãos, e obteve apoio financeiro de US$ 590 mil do Departamento de Estado americano. Os pesquisadores se debruçaram sobre 74 livros israelenses, usados por 1,9 milhão de estudantes, e 94 livros palestinos, usados por 1,2 milhão de crianças na Cisjordânia e na Faixa de Gaza.

Insatisfação dos dois lados

Entre as conclusões principais das 57 páginas do trabalho está a de que eventos históricos são apresentados de forma seletiva nos livros escolares dos dois lados com o objetivo de reforçar a narrativa nacional de cada comunidade.

- Todas as sociedades têm narrativas negativas e positivas quanto a si próprias e aos outros. Nesse caso, os dois lados selecionam só o que é negativo sobre o outro e o positivo sobre si próprios para colocar nos livros escolares - explica o professor Daniel Bar-Tal, da Universidade de Tel Aviv.

Segundo o estudo, os palestinos são caracterizados em termos extremamente negativos em 26% dos trechos israelenses estudados. Já os israelenses são mostrados de forma muito negativa em 50% dos livros oficiais palestinos. Mesmo assim, a equipe formada por Bar-Tal, pelo pesquisador palestino Sami Adwan (Universidade de Belém) e pelo estudioso americano Bruce Wexler (Universidade de Yale), chegou à conclusão que o conteúdo dos livros não é radicalmente violento.

“Caracterizações desumanizantes e demonizantes do outro são raras nos livros israelenses e palestinos”, afirma o estudo, numa conclusão saudada pelo premier palestino, Salam Fayyad.

- Esse estudo prova o que dizemos repetidamente em resposta a alegações dos israelenses, que agora foram invalidadas - comemorou Fayyad, enfatizando que o Ministério da Educação palestino foi instruído a adotar sugestões dos pesquisadores para desenvolver um currículo “baseado em princípios de coexistência, tolerância, justiça e dignidade humana”.

Já o governo de Israel, que se recusou a colaborar com o painel de pesquisadores, rejeitou imediatamente os resultados e a sugestões, acusando o estudo de ignorar conteúdos que incitam à violência nos livros palestinos e traçar paralelos irreais entre os sistemas educacionais de Israel e dos palestinos.

- O estudo é tendencioso, não profissional e profundamente subjetivo - reagiu o ministro da Educação, Gideon Saar.

O estudo contemplou textos de livros para três tipos de colégios israelenses: seculares, religiosos e ultraortodoxos. Os dois primeiros tipos receberam melhores notas na caracterização do “outro” e na inclusão de autocríticas. Mas os livros de escolas ultraortodoxas (22% das instituições, que não são monitoradas pelo Ministério da Educação, e sim por autoridades religiosas) foram criticados por conter passagens, ilustrações e fotos menos neutras. Entre os palestinos, quase todos os livros também foram criticados pela falta de informações sobre o “outro” e de uma visão crítica.

- Todos os livros são tendenciosos, mas isso é menos acentuado entre os israelenses. A exceção são os textos para alunos ultraortodoxos, que podem ser comparados aos livros dos palestinos - diz Daniel Bar-Tal.

Um dos enfoques do trabalho foi a questão dos mapas regionais. A maioria (58%) dos mapas em livros palestinos não mostram nenhum tipo de fronteira entre o Mar Mediterrâneo e o Rio Jordão, como se toda a região formasse o Estado palestino. Outros 33% identificam a chamada Linha Verde - que marcava a fronteira de 1948 até a Guerra dos Seis Dias, em 1967 -, mas sem identificar Israel do outro lado. Só 4% mencionam Israel.

O problema também foi identificado nos livros israelenses: 76% não assinalam a Linha Verde ou identificam os territórios palestinos. No caso dos livros de escolas ultraortodoxas, 95% dos mapas não identificam fronteiras e 25% chamam a Cisjordânia de Judeia e Samária (nomes bíblicos da região).

Para Yossi Kuperwasser, diretor-geral do Ministério dos Assuntos Estratégicos de Israel, a pesquisa leva a crer que os sistemas educacionais dos dois lados são igualmente defeituosos, o que, segundo ele, não é verdade. Os pesquisadores teriam ignorado conteúdos que incitam a violência contra Israel, como trechos que chamam os israelenses de “cobras” e “porcos”.

- Os palestinos têm um sistema de doutrinação e ensino para o ódio, em que terroristas são heróis nacionais. Como eles não viram os livros nos descreverem com características demoníacas, contra as quais todos os meios, incluindo o terrorismo, são legítimos? - pergunta Kuperwasser.

Apesar de mais satisfeitos, os palestinos também não gostaram de todas as recomendações da pesquisa. Para Jehad Zakarneh, que chefia o Centro de Desenvolvimento Curricular palestino, o trabalho deveria enfatizar mais que os livros de escolas ultraortodoxas israelenses caracterizam os palestinos e os árabes em geral de “sedentos de sangue” e “sujos”. Ele também discorda da recomendação de que os israelenses sejam descritos, nos textos palestinos, com mais suavidade.

- Somos vitimas de uma ocupação. Todos os dias experimentamos mortes, prisões, novos assentamentos. Temos que refletir essa realidade nos livros escolares. Como podemos, escrever algo positivo sobre os israelenses? - pergunta.

As estudantes palestinas Jinan e Tala, ambas de 14 anos, refletem esse sentimento. Quando perguntadas sobre o que pensam dos israelenses, elas não hesitam em responder que os “odeiam”, mesmo admitindo que nunca conheceram um deles.

- Os israelenses são monstros - diz Jinan. - Eles roubaram tudo o que é nosso. Não querem a paz. Mesmo que devolvam tudo, não podem ser perdoados.

Em Tel Aviv, os estudantes israelenses Tomer e Assaf, também de 14 anos, asseguram não querer mal aos palestinos.

- Se eu estivesse no lugar deles, talvez sentisse o mesmo em relação a nós. Mas seria bom que entendessem que só queremos a paz - diz Tomer.

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